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Clemente Mariani

Clemente Mariani Bittencourt nasceu no dia 28 de setembro de 1900, na cidade de Salvador. Em 1920, um ano após titular-se Bacharel em Direito, iniciou sua carreira como advogado, e, também, no mesmo ano, assumiu o cargo de redator do Diário da Bahia. À frente deste jornal, Clemente Mariani empreendeu uma importante campanha em prol da eleição de Rui Barbosa nas eleições presidenciais de 1922.

Já em 1924, foi eleito para a Assembléia Legislativa da Bahia, renunciando no ano seguinte para se dedicar à atividade de professor da cadeira de Direito Comercial da Faculdade de Direito da Bahia. Durante toda a sua vida, oscilou entre a carreira política e as atividades empresariais.

Foi novamente Deputado Estadual em 1928, e, em 1933, elegeu-se para uma vaga na Assembléia Nacional Constituinte pelo Partido Social Democrático (PSD). Com a implantação do Estado Novo, Mariani afastou-se da política partidária e, além da atividade docente, passou a se dedicar às atividades empresariais, assumindo a cadeira de diretor da Associação Comercial da Bahia. Em 1942 tornou-se diretor do Banco da Bahia, e dois anos mais tarde, assumiu a presidência da instituição.

Só após o fim do primeiro governo Vargas Clemente Mariani retomou a atividade política, sendo eleito Deputado da Assembléia Nacional Constituinte pela União Democrática Nacional (UDN), partido que congregava os opositores da política varguista. Entre 1946 e 1950 Clemente Mariani foi o titular do Ministério da Educação e Saúde, retornando à presidência do Banco da Bahia durante o segundo governo Vargas. Em 1954, foi nomeado pelo presidente Café Filho para a presidência do Banco do Brasil, permanecendo no cargo enquanto esteve no Ministério da Fazenda o economista Eugênio Gudin. Em 1961, o presidente Jânio Quadros nomeou Clemente Mariani Ministro da Fazenda.

Após a renúncia de Jânio Quadros, Mariani não voltou à política, dedicando-se exclusivamente aos negócios. Criou um banco de investimentos e uma companhia de seguros, ambos ligados ao Banco da Bahia. Em 1971, elaborou o projeto de uma indústria petroquímica, que se tornaria a base do Pólo Petroquímico de Camaçari.

Alguns de seus discursos e conferências, boa parte deles relativa aos problemas da educação no Brasil, foram publicados na forma de livros, estando disponíveis para consulta no Cedic-BA.

Clemente Mariani faleceu em Salvador, em agosto de 1981.

Clemente Mariani e a Educação Pública

À frente do Ministério da Educação e Saúde, Clemente Mariani lutou para tornar real o programa contido no “Manifesto dos Pioneiros da Educação Novaabre em uma nova janela ou aba”, assinado em 1932 por diversos intelectuais (dentre os quais Anísio Teixeiraabre em uma nova janela ou aba, Roquete Pinto, Fernando de Azevedo, Cecília Meireles e Júlio de Mesquita Filho) e que propunha uma completa reestruturação do ensino formal no Brasil, de maneira a assegurar a oferta pelo Estado de uma educação universal, laica, gratuita, obrigatória e sem distinção de gênero, descentralizada e com garantia da autonomia escolar frente às demandas da economia e da política, assegurada pela criação de um fundo específico. Os “escolanovistas”, como vieram a ser chamados, defendiam ainda a distribuição das atribuições educacionais entre os níveis federal, estadual e municipal.

Mariani nomeou seu assessor um dos signatários do manifesto, Fernando de Azevedoabre em uma nova janela ou aba, e criou uma comissão para elaborar o ante-projeto da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. No discurso de abertura dos trabalhos da comissão, Mariani explicitou seu interesse em superar o modelo educacional implantado no Estado Novo, enfatizando a necessidade de garantir às camadas populares o acesso à educação.

Ao mesmo tempo em que o projeto era trabalhado foram constituídas campanhas nacionais, dentre as quais se destacou a campanha de alfabetização, que buscava reverter os altos índices de analfabetismo, que chegavam atingir no estado da Bahia as cifras de 71% para as pessoas acima de 18 anos e 70% para as crianças em idade escolar. Entre os anos de 1947 e 1948 foram matriculados mais de um milhão de estudantes no curso de supletivo geral em todo o país. O Ministério atuou, ainda, na construção de escolas rurais e na formação de professores, organizando cursos de aperfeiçoamento e concedendo bolsas para os profissionais.

O projeto de Lei de Diretrizes e Bases foi enviado ao Congresso em 29 de outubro de 1948, mas encontrou um ambiente pouco propício para sua aprovação. Por um lado, as articulações político-partidárias impediam que a discussão das propostas fosse priorizada. Ao mesmo tempo, o projeto encontrou no Congresso seu maior opositor na figura do então deputado Gustavo Capanema, que havia sido ministro da Educação durante o primeiro governo Vargas. A votação do projeto foi sendo postergada durante toda a década de 1950, só sendo efetivada em 1961, treze anos após o seu envio ao Congresso, e com diversas emendas que alteraram em muito o projeto original.

As propostas contidas no “Manifesto dos Pioneiros” ressaltam por sua pertinência e atualidade. Muitas delas foram, ao longo das décadas de 1990 e 2000, recuperadas e incorporadas à legislação, a exemplo da municipalização do ensino, da autonomia das escolas e da criação de fundos para a manutenção do ensino nos níveis básico e fundamental.

A ação da Fundação Clemente Mariani no campo da educação pública foi guiada, desde o início, pelos ideais democráticos abraçados por Clemente Mariani e pelo espírito das propostas escolanovistas.